Escavação do Sítio Valter Dentista: 7.690 Anos de História em Tapira/MG
Conheça o livro que documenta a escavação do Sítio Valter Dentista, no Complexo de Mineração de Tapira (MG), revelando ocupações humanas de quase 8.000 anos, um raro forno de terra pré-cerâmico e uma urna funerária da tradição Aratu-Sapucaí.

Apresentação
A Arqueologika - Consultoria em Arqueologia e Negócios Socioculturais tem a satisfação de apresentar o livro "Escavação do Sítio Valter Dentista e a pesquisa arqueológica no complexo de mineração de Tapira/MG", uma publicação que documenta de forma acessível e rigorosa os resultados de anos de pesquisa arqueológica conduzida no âmbito do licenciamento ambiental do Complexo de Mineração de Tapira (CMT), operado pela Mosaic Fertilizantes, no município de Tapira, região do Alto Paranaíba, em Minas Gerais.
O livro, editado por Cássia Bars Hering e com contribuições de uma equipe multidisciplinar de pesquisadores, foi concebido como instrumento de divulgação científica e educação patrimonial, destinado tanto a profissionais da área quanto ao público em geral. A obra conta com o apoio financeiro da Mosaic Fertilizantes, apoio institucional do Museu Arqueológico do Carste do Alto São Francisco (Pains/MG) e proteção e fiscalização do IPHAN - Superintendência de Minas Gerais.
O Sítio Valter Dentista: Quase 8.000 Anos de Ocupação Humana
O Sítio Arqueológico Valter Dentista, localizado na cidade de Tapira (MG), é um sítio a céu aberto que ocupava uma área de aproximadamente 450.000 m², na colina da margem direita do córrego da Cachoeira. As escavações, realizadas principalmente entre 2014 e 2018, revelaram um sítio multicomponencial, ou seja, com evidências de diferentes períodos de ocupação por grupos humanos distintos ao longo de milênios.
O nome do sítio homenageia um dentista morador de Tapira, conhecido na região como "Valter Dentista", que recebeu material arqueológico de um morador local que primeiro identificou vestígios no terreno, ainda em 2003.
As datações obtidas por meio de carbono 14 (14C-AMS) e luminescência oticamente estimulada (LOE) revelaram ao menos dois grandes períodos de ocupação:
| Tipo de Datação | Data Obtida | Descrição |
|---|---|---|
| LOE | 530 +/- 50 AP | Cerâmica - contexto Aratu-Sapucaí |
| LOE | 700 +/- 60 AP | Cerâmica - contexto Aratu-Sapucaí |
| AMS | 750 +/- 30 cal AP | Esmalte de dente - urna funerária Aratu-Sapucaí |
| LOE | 800 +/- 70 AP | Cerâmica - contexto Aratu-Sapucaí |
| AMS | 1.120 +/- 30 cal AP | Vestígios líticos associados a estrutura de combustão |
| AMS | 4.690 +/- 30 cal AP | Forno de terra - contexto caçador-coletor |
| AMS | 7.690 +/- 30 cal AP | Vestígios líticos associados a fogueira - caçador-coletor |
O Forno de Terra: Uma Descoberta Rara no Brasil
Uma das descobertas mais significativas do sítio foi o forno de terra (earth-oven), identificado a cerca de 0,50 m de profundidade, datado de aproximadamente 4.690 AP. Trata-se de um arranjo de rochas em formato elíptico, com eixo maior de aproximadamente 1,75 m, composto por gabro, canga e arenito, com carvão associado. Nenhum fragmento cerâmico foi encontrado em associação direta à estrutura, confirmando seu contexto pré-cerâmico.
Fornos de terra são estruturas de cocção que utilizam o calor absorvido por rochas expostas ao fogo para o preparo de alimentos. Esse tipo de estrutura é documentado em diversas partes do mundo, datando desde cerca de 32.000 anos no Velho Mundo e 10.500 anos nas Américas. No entanto, a identificação de fornos de terra em contextos pré-cerâmicos é ainda incomum para a arqueologia brasileira, o que torna a descoberta do Sítio Valter Dentista particularmente relevante.
De acordo com estudos experimentais, um forno de terra de dimensões semelhantes ao encontrado no sítio (cerca de 1,75 m de eixo maior), com rochas aquecidas, seria capaz de manter temperaturas adequadas para o cozimento por pelo menos 42 horas, permitindo o preparo de carnes de caça, ovos ou vegetais ricos em carboidratos complexos. As análises laboratoriais identificaram que o gabro, rocha ígnea de boa condutividade térmica, foi utilizado em maior proporção, enquanto blocos de arenito, trazidos de outras áreas, parecem ter sido posicionados estrategicamente.
O etnólogo Curt Nimuendajú descreveu, na primeira metade do século XX, o uso de estruturas semelhantes por indígenas Apinayé, da região do Tocantins, confirmando a longevidade e relevância cultural desse método de preparo alimentício.
A Urna Funerária Aratu-Sapucaí
Outra descoberta de grande importância foi a urna funerária associada à tradição Aratu-Sapucaí, datada de aproximadamente 750 AP (cerca de 1.200 d.C.). A urna foi encontrada emborcada no leito de uma estrada rural que corta o sítio, tendo sido parcialmente exposta e danificada pelos trabalhos de abertura e manutenção da via.
A escavação do conteúdo da urna foi realizada em laboratório, a fim de evitar seu colapso e a contaminação do sedimento. Os trabalhos revelaram vestígios humanos de um indivíduo subadulto, com idade estimada entre 5 e 7 anos: mandíbula e maxila articuladas em posição anatômica, molares decíduos e caninos inclusos. Os vestígios ósseos encontravam-se em avançado grau de decomposição.
Logo abaixo da urna emborcada, foi evidenciado outro recipiente cerâmico menor, parcialmente em seu interior, além de uma lâmina de machado polida encontrada no lado externo. No interior da vasilha menor, foi encontrada outra lâmina de machado polida. Esse padrão funerário é consistente com as características da tradição Aratu-Sapucaí, que incluem urnas funerárias piriformes sem decoração, com tigelas menores como tampa, e acompanhamentos funerários como machados polidos.
Vestígios Cerâmicos e Líticos
O material arqueológico coletado no sítio foi composto por aproximadamente 9.549 fragmentos cerâmicos (80% do total) e 2.546 fragmentos líticos (20%). A cerâmica está associada à tradição Aratu-Sapucaí, enquanto os vestígios líticos representam tanto as ocupações mais antigas de caçadores-coletores quanto os contextos ceramistas.
A indústria lítica do sítio apresentou predominância do uso de quartzo translúcido, trabalhado quase exclusivamente pela técnica de lascamento bipolar. As poucas lascas unipolares encontradas foram elaboradas em matérias-primas de melhor clivagem, como silexito, arenito silicificado e granito. Instrumentos de pedra polida, como lâminas de machado, também foram recuperados, associados principalmente aos contextos Aratu-Sapucaí.
Arqueologia Preventiva e Licenciamento Ambiental
O livro também aborda de forma didática o papel da arqueologia preventiva no contexto do licenciamento ambiental brasileiro. As pesquisas no Complexo de Mineração de Tapira foram realizadas entre 2011 e 2019, abrangendo diversas Áreas Diretamente Afetadas (ADAs) pelo empreendimento minerário, incluindo a Barragem de Lamas 3, os Depósitos T4 e E10, e os Avanços de Lavra.
A obra demonstra como a legislação brasileira de proteção ao patrimônio arqueológico, fundamentada na Lei nº 3.924/1961 e regulamentada por portarias e instruções normativas do IPHAN, garante que empreendimentos de grande porte conduzam pesquisas arqueológicas como condição para o licenciamento ambiental. Esse modelo de gestão patrimonial permite conciliar o desenvolvimento econômico com a preservação de bens culturais de valor inestimável.
Educação Patrimonial
O livro dedica um capítulo à educação patrimonial, descrevendo as ações realizadas com moradores de Tapira e funcionários da Mosaic Fertilizantes. Essas atividades buscaram aproximar a comunidade local dos resultados da pesquisa, promovendo a valorização do patrimônio arqueológico como bem coletivo e estimulando a consciência sobre a importância da preservação.
Como Acessar o Livro
O livro "Escavação do Sítio Valter Dentista" é uma publicação de distribuição gratuita, sem valor monetário, produzida como parte das medidas de mitigação e compensação do licenciamento ambiental. A obra está disponível para download gratuito e pode ser solicitada diretamente à Arqueologika.
Baixar o Livro Completo em PDF (Gratuito)
"A pesquisa arqueológica no âmbito do licenciamento ambiental é uma oportunidade única de conhecer e preservar a história das populações que habitaram o território brasileiro ao longo de milênios." — Cássia Bars Hering
Galeria de Imagens
As fotografias a seguir foram extraídas diretamente do livro e ilustram as principais etapas e descobertas da escavação do Sítio Valter Dentista em Tapira/MG.
Vista Aérea do Sítio Arqueológico
Vista aérea por drone do Sítio Valter Dentista, revelando as quadras de escavação em meio à vegetação do Complexo de Mineração de Tapira.
Trabalho de Campo
Sinalização de material cerâmico em superfície e limpeza prévia para coleta na área do complexo de mineração de Tapira.
O Forno de Terra Pré-Cerâmico
O forno de terra (earth-oven) datado de aproximadamente 4.690 AP, com arranjo de rochas de gabro, canga e arenito em formato elíptico. Uma das descobertas mais raras da arqueologia brasileira em contexto pré-cerâmico.
Escavação da Urna Funerária
Momentos da escavação da urna funerária in loco e seu preparo para transporte e escavação em laboratório. A urna pertence à Tradição Aratu-Sapucaí, datada de aproximadamente 750 AP.
Vestígios Cerâmicos
Exemplo de remontagem de peça cerâmica recuperada no Sítio Valter Dentista, evidenciando as técnicas de produção das populações que habitaram a região.
Quadras de Escavação
Vista aérea das quadras de escavação no sítio arqueológico, mostrando a organização sistemática do trabalho de campo.
Educação Patrimonial
Jovens memorialistas participando da Mostra do Patrimônio Cultural de Tapira, um dos resultados mais significativos do programa de educação patrimonial vinculado à pesquisa arqueológica.
Ficha Técnica
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Escavação do Sítio Valter Dentista e a pesquisa arqueológica no complexo de mineração de Tapira/MG |
| Editoração | Cássia Bars Hering |
| Realização | Arqueologika - Consultoria em Arqueologia e Negócios Socioculturais |
| Apoio Financeiro | Mosaic Fertilizantes - Complexo de Mineração de Tapira (CMT) |
| Apoio Institucional | Museu Arqueológico do Carste do Alto São Francisco - Pains/MG |
| Proteção e Fiscalização | IPHAN - Superintendência de Minas Gerais |
| Design | Cajueiro Design (Caio Bars) |
| Fotografias | Mauricio de Paiva e equipe Arqueologika |
Autores e Colaboradores
A obra reúne contribuições de uma equipe multidisciplinar composta por Cássia Bars Hering, Alexandre Hering de Menezes, Eduardo Carvalho de Oliveira, Jaqueline da Silva Belletti, José Moacir Zem, Lisiane Müller, Maria Tereza Vieira Parente, Maria Lúcia Furtado Coelho Campos, Nayana Grasielle Marques Silva, Marcony Lopes Alves e Mariana Inglez, profissionais de diversas áreas da arqueologia, bioarqueologia e gestão patrimonial.
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